“SE AMOR FOR A CORAGEM DE SER BICHO.”
- Caio F.
vontade de ser,
crescer
que coisa.
tão pouca que é
quase nada.
tão toda que é
tudo.
sopra leve e leva.
lava também.
a alma que é de
agora,
acaba que não tem
hora
e sempre quer além.
pra lá das montanhas,
dos mares, dos ares
sem fim.
segura senão vôa. solta
senão côa.
a leveza de ser insustentável,
a insustentabilidade
de ser
leve.
B.
(…) “Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão” (…)
C.B.H
p o i s q u e t o d a s a s c o i s a s n e c e s s i t a m d e i n t e r v a l o .
n ã o e x a t a m e n t e d e p a u s a . m a s d a s r e t i c ê n c i a s , d o
r e s p i r o , d o s u s p i r o .
n a d a s e m a n t é m c o n s t a n t e p o r t o d o o t e m p o . o a r é
p r e c i s o , o v a z i o n e c e s s á r i o .
q u a n d o n ã o , t u d o v o l t a . n ã o c o m o e r a p o r q u e j á n ã o é
B .
“Porque as coisas por aqui se turvaram e tudo foi ficando muito confuso. Eu não quero mais te ver. Bato de frente, perco as arestas. Aqui só tem meada.
Alguma coisa rangendo por dentro e, fundo em mim, sem avisar, se anuncia.
Zueira, zueira, zueira. Eu gosto deste som.
Há quantas anda este corazón, benzinho?
Amor? Não ousaria. … difícil aprisionar os quem tem asas, eu sei. Peço a conta. Deliro um pouco antes de chorar. Mais uma vez. Tudo bem, eu sei. Ando mesmo meio desligada. A velha angústia encardida querendo ser renda fina. Outra vez. Tô exausta de demolir fantasias. Ando infeliz pra caralho. Me interna?
Queria tanto meu patinho de borracha. My little-fucking-rubber-duck!
Para onde vão os patos quando os lagos congelam?
“Sentir, amar, sofrer, devotar-se, será sempre o texto da vida das mulheres.”
God! Como estou balzaquiana hoje!
Melhor parar por aqui. Mais uma dose! Melhor parar.”
- Marques, Rafael.
“além de nossa condição de protozoários na superfície de uma bolinha azul imensa perdida e ferida no infinito , além do nosso medo imenso dessa condição e da pena também imensa que brota pelo humano, só nos resta o mistério.”
- Marques, Rafael. (com a sua licença)
“solo el misterio nos hace vivir.” – Lorca.
pensei em você era quase três da manhã quando pensei em você não isso não é verdade era dia claro quando pensei em você estendi as mãos em volta ainda com os olhos fechados tateando às escuras não havia nada ninguém fui comprar jornal sei que gostas de ler notícias pela manhã comprei pão também e leite passei um café forte abri as janelas para que o ar do novo dia nos saudasse doce brisa e me coloquei à porta do quarto feito um gato ansioso à espera do dono era quase meio dia quando pensei novamente em você sei porque me deu aquela tontura destes dias quentes ai as geleiras ai a camada de ozônio ai onde é que isso tudo vai parar meu deus sei que você me entende sei que ri também e não sei se devido à tontura mais uma vez subindo os dezessete andares fui atravessado pelo rastro imperdoável do teu perfume e pensei em você nada nada pensei em você no meio da tarde quando desejei louco uma rede faixa de mar infinito água de beber balançaríamos os dois príncipes bundos brancas pombas a vadiar na areia e eu sei que você me pediria qualquer coisa no violão quem sabe um samba antigo e passarímos a vida assim no centro do universo você deitaria no meu ombro ou eu no seu tanto faz e sentiríamos que tudo aquilo valia a pena sim e então foi me dando uma saudade inconsolável um desespero torto de quem desaprendeu como se pede algo à alguém aguardava respostas no fim da tarde quando os automóveis buzinavam e as filas não andavam e os ônibus lotados não me deixavam outra alternativa a não ser continuar pensando em você afinal era início de tarde e quem sabe uma very-happy-hour-baby quem sabe um sorvete suco de abacaxi com a hortelã que eu plantei no quintal quem sabe tudo em qualquer esquina casual quando nos olharíamos aliviados e nos abraçarí amos e caminharíamos contando de nossos dias nossas vontades nossas fomes estaríamos famintos os dois e sairíamos sem presssa ilesos ao caos lá de fora o universo suspenso para que pudéssemos nos escutar sem gritos entrelaçados e quase fim do dia tantos filmes tantos shows tanta vida buscaríamos bares simpáticos e aconchegantes ou arrumaríamos as malas e nos mandaríamos para Luanda pois à noite me invadem os dragões vorazes as pulsões e já era quase nove dez onze da noite quando pensei em você estava exausto liguei o rádio e “I know that’s the way” fui apagando uma sede vezenquando me dá uma sede secular de eram quase três da manhã você sabe e pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei pensei com afeto em você.
- Marques, Rafael.
“Saí ontem arrombando as ruas, furando calçadas, enterrando cadernos, saltando as bordas, medindo o tempo no contra, sem ter. Saí por aí, varando os edifícios, pintando os viadutos, convexo, dançando na cara do crime, gritando o coro do medo. Nada, nada. Vieram todos comigo, debruçados sobre o mesmo buraco, fechadura. Noite. Ela diz:
- Entra, homem. Fiquei te esperando. Tem doce de abóbora fresquinho em cima do. Olha o teu estado. Quem te ver passando por aí pode até pensar que. Entra, meu bem. Está tarde. Nossa cama tá estendida, já cobri os meninos, velei o sono de cada um, dei de beber às plantas. Cê tá com fome, nêgo? Se quiser eu. É dia dois, deixei o quiabo de molho, amanhã faço do jeitinho que tu gosta. Entra homem, pára de me olhar desse jeito. Sabe que eu me preocupo. A gente vê tanta coisa ruim acotecendo que. Eu sou tua mulher. Em mim você pode confiar. Entra, meu bem. Eu sou tua mulher. Em mim você pode.
Fim de diálogo.”
- Marques, Rafael.